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“De Olho no Material Escolar” planta verdades para colher conhecimento – Letícia Jacintho

Ao acompanhar o processo de aprendizagem de seus filhos durante a pandemia, um grupo de mães percebeu que as informações sobre o agronegócio nos livros didáticos não eram baseadas em fontes seguras, retratando inverdades sobre o setor. Nesse grupo estava a administradora de empresas Letícia Jacintho. Nascida e crescida no campo, Jacintho, junto de outras pessoas ligadas ao setor, fundou a Associação “De Olho no Material Escolar”, que promove a atualização do conteúdo escolar já em 16 estados do Brasil e 105 cidades, aproximando a educação dos setores produtivos.

Presidente da Associação De Olho no Material Escolar, Jacintho é produtora rural, analista do setor, vice-presidente do NFA (Núcleo Feminino do Agro) e conselheira do Cosag (Conselho Superior do Agronegócio), um órgão técnico estratégico da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Sua conexão com o setor a acompanhou em todas as etapas de sua vida pessoal e profissional, colocando-a na lista das 100 mulheres da Forbes Agro 2023. Em entrevista para a Revista Coopercitrus, ela fala sobre as conquistas e os desafios de retratar o agro atual para as futuras gerações.

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Coopercitrus – Como surgiu a ideia de criar a Associação De Olho no Material Escolar?Leticia Jacintho – A Associação De Olho no Material Escolar surgiu durante a pandemia através da organização da sociedade civil que estava presente não só vendo o material didático das crianças, mas também ouvindo as explicações que eram feitas em aula e propostas de atividades e provas sobre o agro. Isso nos impactou bastante naquela

época, pois percebemos uma distância muito grande entre realidade e a própria ciência que temos no Brasil e os materiais didáticos. Eles estavam desatualizados, trazendo informações de 50 a 100 anos atrás, abordando assuntos que não existem mais e condenando um setor que vem ajudando a colocar a economia nos trilhos com grandes números de sucesso, além de ser um setor tecnológico e social. Hoje em dia estamos em 16 estados e 105 municípios, abrangendo quase todo o Brasil. As atividades são feitas pelos próprios associados em conjunto de forma voluntária, sem fins lucrativos, com todo o trabalho de diretoria, conselhos e voluntários. Neste caminhar, nós evoluímos muito nos três anos e meio em que estamos atuando nesse setor.

Coopercitrus – Qual é a principal missão da associação e como ela impacta o agronegócio brasileiro? De que maneira a associação trabalha para integrar o agro brasileiro ao material escolar?

Leticia Jacintho – Temos quatro pilares que são muito importantes para entender a forma como a associação atua. O primeiro pilar iniciou-se com foco nos livros didáticos, pois construímos uma conexão com as editoras. Era um setor extremamente fechado; não tinha espaço para ninguém e os grandes grupos já estavam atuando ali há muito tempo. Por ano, o MEC (Ministério da Educação) compra 2,5 milhões de materiais no PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) e isso já funcionava desta maneira. Depois, chegou a “De Olho no Material Escolar” alertando que os conteúdos estavam fora da ciência e prejudicando de alguma maneira o desenvolvimento econômico e social brasileiro. Para criar uma conexão com essas empresas nós tivemos que entender qual era o seu papel, por quais processos elas passavam dentro do MEC e como funcionava a educação brasileira. Isso trouxe uma inteligência bastante valiosa para a associação e conseguimos nos sentar nas principais mesas das editoras brasileiras. Trouxemos a FEA/USP (Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo) para analisar 80% do material didático brasileiro em relação ao agronegócio.

O que nos foi trazido como resultado é que 60% das menções nos materiais didáticos relacionadas ao setor eram negativas e somente 3,7% dos materiais tinham fontes científicas — ou seja, os materiais estão sendo escritos por fontes autorais, jornalistas ou pelo Google, mas sem uma grande consciência e responsabilidade, com todas as crianças aprendendo com esse material. Pode-se fazer propaganda dizendo que o “Agro é pop” e o “Agro é tudo” ou qualquer outro tipo de publicidade falando do agronegócio, mas se não consertamos a base, que é a educação, será muito difícil conseguir mostrar toda essa grandeza do agronegócio. Não é grandeza financeira, mas grandeza de oportunidades, desafios e tecnologias de ponta, com grande responsabilidade na segurança alimentar e energética, sendo uma das grandes maneiras de ascensão social através do potencial e do legado que o Brasil tem no passado, presente e futuro em relação ao agro.

O trabalho com as editoras foi feito com revisão do material e escrevendo juntamente com eles, trazendo fontes de pesquisa como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), o IAC (Instituto Agronômico) e toda a rede acadêmica como a USP, Unicamp e a Esalq, que é uma grande apoiadora, além do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), Harven, e FGV (Fundação Getúlio Vargas). Temos grandes parceiros no

mercado de educação nesse projeto. E traduzimos esses trabalhos científicos para a linguagem da criança e do adolescente.

O segundo pilar é a Agroteca, que fica hospedada dentro do site: https://deolhonomaterialescolar.com.br/agroteca/. Lá é possível encontrar diversas informações do setor com linguagem acessível para que alunos, professores e os próprios conteudistas possam utilizar nas suas aulas, escritas e na produção de material didático. Hoje em dia temos mais de 300 publicações e a curadoria é feita pela própria Esalq, com professores que entendem do assunto. Fazemos uma pesquisa constante e conseguimos medir qual assunto está sendo mais debatido e procurado, assim como quais são os setores que estão acessando. Uma grande gama do setor empresarial está utilizando a Agroteca como fonte confiável e isso é muito importante, pois as fontes que estão descritas ali são científicas, atualizadas e públicas.

O terceiro pilar é o “Vivenciando a Prática”, que consiste em levar crianças e adolescentes e o setor educacional como um todo para ver o que acontece na prática, para poderem tocar, ver e sentir a realidade do agronegócio. Estamos participando das maiores feiras agropecuárias do Brasil com esses estudantes. Levamos dois mil alunos à Agrishow, mas isso também acontece em visitas na agroindústria e fazendas. Com isso os alunos têm a dimensão da conexão do campo com a cidade. O que faz parte do dia a dia daquele aluno, a roupa que ele veste, a carteira onde ele senta, o lápis e o papel que ele utiliza, além das coisas básicas que ligamos ao agronegócio.

Nesse formato, temos a Coopercitrus e a Credicitrus como grandes parceiras. Acredito que isso deva se multiplicar no primeiro projeto que fizemos para a empresa. Ele é realizado com 750 alunos durante um ano, com 16 visitas com uma média de 34 professores. A cada 15 dias um grupo diferente visita a Fundação Coopercitrus, assistidos pela “Associação De Olho no Material Escolar” que fica responsável por toda coordenação do projeto, pelos materiais necessários para que aquela criança faça uma boa visita como um lanche, uma água, um boné, além das fichas técnicas sobre o que vai ser conversado com esse aluno e se ele tem a idade certa para compreender, além das premiações.O quarto e último pilar são as políticas públicas educacionais, e temos atuado fortemente dentro delas. Não adianta agir com ações pontuais nos municípios, estados e no setor privado se existem leis que vão na contramão de uma educação mais democrática, mais inclusiva e produtiva. O Brasil, hoje, está em um patamar assustador em relação à educação de outros países no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos). Por exemplo, foram avaliados 81 países pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) e estamos na 65ª posição em matemática, 61ª em ciências e 52ª em literatura. Os alunos brasileiros não atingiram a média do exercício de cidadania, inclusive com escolas particulares participando. Os resultados do Pirls (Progress in International Reading Literacy Study) mostram que 13% dos brasileiros não têm nível adequado de proficiência em leitura, ou seja, não sabem ler, escrever e se comunicar. A criança que não é alfabetizada na idade correta tem problemas para o resto da vida, inclusive de autoestima, e isso gera uma série de consequências e sequelas na vida desse ser humano. Precisamos consertar isso na base. Hoje em dia temos 10,5% dos alunos alfabetizados no Brasil na idade correta. Temos 11,5 milhões de pessoas de 15 a 29 anos da geração “Nem-Nem” que não estudam e nem trabalham. Isso gera grandes reflexões sobre o que a escola está trazendo. Por que eles não estão estudando? Eles estão entendo a interação do que estão estudando, o que vão usar no

futuro? Eles vêem algum propósito ou se enxergam nesse mundo como grandes modificadores desse status? Esses índices nos preocupam, e a “De Olho” tem agido de forma bastante técnica exatamente como agimos dentro do agro com os parlamentares.

Construímos várias análises em relação ao que aconteceu nos países que já estiveram no mesmo patamar que o nosso. Como eles saíram do fundo do poço, como reconstruíram e modificaram uma geração. Para o feito, trouxemos propostas com metas e objetivos bem claros.

Destaco três pontos muito importantes: o cuidado com essa alfabetização na idade correta, o olhar para esse docente e para os alunos de Pedagogia que estão desassistidos, na maioria das vezes estudando à distância, trabalhando durante o dia para fazer uma faculdade à noite e não têm a prática para trabalhar com no mínimo 30 famílias diferentes. É preciso ter um preparo grande e esses professores precisam ser assistidos. Então, propomos certificações, bonificação por desempenho em qualidade por aprendizagem. O que vem se propondo no Brasil é número de alunos nas escolas, e não se o aluno está aprendendo.

Temos um desafio agora e temos uma grande oportunidade para saber que rumo o Brasil vai tomar através da educação.

Coopercitrus – Quais são os maiores desafios enfrentados pela associação até agora? Pode compartilhar alguma conquista recente da associação que teve um impacto significativo?

Letícia Jacintho – Os desafios são imensos, mas, quando se tem trabalho, muita ação, uma vontade legítima e um propósito maior, os objetivos coletivos vão muito além dos individuais e diante disso não existe força que nos pare.

O maior desafio agora é ficar atento às votações que vão acontecer no próximo ano, em relação às leis educacionais. Não adianta agir sem cumprir a lei. Então, se não ficarmos atentos a isso, o nosso trabalho, por mais bonito que seja, não vai acontecer se as leis vierem contra aquilo que sabemos que dá certo, que a ciência fala que dá certo. Não é a “De Olho” que fala que dá certo; temos vários exemplos disso no mundo.

O desafio é trazer essa linguagem técnica da educação para toda a população civil. Os pais têm que saber sobre a educação. Os professores têm que entender mais sobre educação. Muitas vezes ninguém sabe o que está acontecendo no país, nem que essas leis estão sendo votadas e que vão atingir diretamente o próprio trabalho. Imagine quem é leigo nesse assunto.

Outro assunto é sensibilizar a mídia. Percebemos que há pouquíssimas setoristas de educação na mídia, mesmo nos grandes veículos. Muitos eventos que realizamos são internos e os veículos não têm ninguém para nos enviar. Nós gostaríamos de sentar e debater, porque isso vai fazer parte também da sucessão de grandes empresas que precisam de bons jornalistas e bons profissionais. Vai afetar o mercado como um todo, o país como um todo.

O “Mapa do Poder” é uma ferramenta extremamente valiosa que mostra quais são os deputados e senadores que votaram na educação, que falam sobre o tema, ou que estão em alguma comissão que é importante para a construção de leis educacionais, emendas

e frentes parlamentares. E esse documento trouxe de forma muito clara que 60% não falam de educação.

A base do país é a educação e ninguém pode esquecer disso, independentemente do setor em que trabalhe. Se não investir em educação, a sucessão, a continuidade da sua empresa, do seu legado, possivelmente vão quebrar em algum momento. Precisamos de pessoas e elas são valiosas. Temos que construir essas pessoas e ajudar esses profissionais. Por isso, temos feito um trabalho muito importante dentro do parlamento, tanto no Senado como na Câmara dos Deputados. A De Olho levou nove debatedores para falar sobre o tema no Senado. Acreditamos que não se trata aqui de personalidades ou políticas de um lado ou de outro; estamos tratando de pavimentação. A gente precisa de uma base boa. Depois a gente pode discutir as outras pautas que se fazem necessárias, mas se a criança não souber escrever e resolver as quatro operações, ela não consegue nem ser um indivíduo capaz de se defender, se entender e saber tomar posicionamentos importantes na sua vida.

Coopercitrus – Como produtores rurais e profissionais do agronegócio podem se envolver ou apoiar a associação?

Letícia Jacintho – A associação tem um cadastro que pode ser feito em todas as nossas redes. Através desse cadastro uma pessoa entra em contato e faz uma colaboração mensal de pessoa física ou jurídica. Não é um valor alto, pois a ideia é que tenhamos o máximo de associados por conta dessa força, dessa união da sociedade civil que é o que realmente transforma. Esta é uma maneira de participar conosco. Também tem empresas, associações cooperativas e todo o setor participando como apoiadores e patrocinadores. Esses trabalhos técnicos demandam muita profissionalização; não pode ser qualquer pessoa, temos que trazer algo científico. Isso demanda investimentos. As viagens que fazemos para vários lugares para dar palestras, os treinamentos que fazemos também de porta-vozes, tudo isso mostra que estamos com uma estrutura muito robusta na “De Olho no Material Escolar”.

A parte de presidência, conselhos e diretoria é voluntária, mas embaixo de cada pontinho desses temos profissionais extremamente capazes coordenando tudo para que essa orquestra toque da melhor maneira possível e a gente continue levando todos os trabalhos que temos feito pelo país com credibilidade e com responsabilidade científica.

A Coopercitrus é uma grande parceira nossa desde o início. Isso é um grande motivo de orgulho e de agradecimento.

Coopercitrus – Que mensagem você gostaria de enviar aos produtores rurais e profissionais do agronegócio que leem a revista Coopercitrus?

Letícia Jacintho – É muito importante essa ação conjunta da sociedade civil. A “De Olho no Material Escolar” não é da Letícia, não é da Coopercitrus ou de qualquer grupo fechado. Somos de quem quiser estar conosco, quem tiver como colaborar, porque somente de mãos dadas e unidos vamos conseguir chegar a algum lugar.

Precisamos ampliar o debate e também precisamos de dinheiro para continuar com as nossas ações. Todas as pesquisas são caras, mas elas têm gerado uma efetividade

muito maior do que o que foi investido. Esses associados são um grande diamante da “De Olho”. Então, produtor rural, empresas e grandes empresas do setor que a Coopercitrus tem como fornecedores, venham participar conosco para que possamos ampliar esse debate e trazer para a mesa tanto o setor educacional quanto o setor produtivo, a mídia e o parlamento como um todo. Essa conscientização de que a educação tem que estar no radar de todos deve ser primordial se quisermos construir um caminho sólido com raízes profundas para o desenvolvimento, para a produção e sucessão do nosso país.

Quer conhecer mais sobre o trabalho e os projetos realizados pela associação “De olho no Material Escolar” ou sobre o agro brasileiro a partir de informações atualizadas? Acesse https://deolhonomaterialescolar.com.br/ 

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