Presidente do Instituto Pensar Agro e superintendente do Sistema OCB, Tania Zanella compartilha sua trajetória, visão sobre o agro e os caminhos para fortalecer cooperativas, mulheres e jovens no campo.
Tania Zanella carrega no próprio percurso a essência do cooperativismo. Nascida em uma família cooperativista de Santa Catarina, cresceu vendo de perto como a união entre produtores transforma comunidades e impulsiona o desenvolvimento regional. Formada em Direito, converteu essa vivência em propósito profissional ao ingressar no Sistema OCB, onde atua há mais de 15 anos na defesa e fortalecimento do cooperativismo brasileiro.
Foi a primeira mulher a assumir o cargo de gerente-geral e, depois, superintendente da OCB, posição que ocupa desde 2021. Também preside o Instituto Pensar Agro (IPA) e integra o Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp (Cosag). Em 2023, foi eleita pela Revista Forbes como uma das 100 mulheres mais poderosas do agronegócio.
Sua atuação une inovação, governança, sustentabilidade e assistência técnica — pilares que, segundo ela, garantem competitividade ao setor, ampliam o acesso à tecnologia e fortalecem especialmente os pequenos e médios produtores. Defensora da diversidade e da formação de novas lideranças, Tania trabalha para ampliar a presença de mulheres e jovens nos espaços de decisão dentro das cooperativas.
Nesta entrevista, ela compartilha sua trajetória e sua visão sobre os caminhos que fortalecem o agro nacional com base no cooperativismo.
Coopercitrus – Como nasceu sua conexão com o cooperativismo?
Tania Zanella – Minha conexão com o cooperativismo nasceu muito antes da minha trajetória profissional. Venho de uma família cooperativista: cresci em Santa Catarina, onde o movimento faz parte do cotidiano das pessoas e da economia, e meu pai sempre foi cooperado. Esse ambiente formou minha visão de mundo e me mostrou, desde cedo, como a cooperação transforma realidades de maneira concreta e inclusiva. Quando entrei no Sistema OCB, em 2008, essa vivência familiar se transformou em propósito de vida profissional: fortalecer um modelo que gera desenvolvimento econômico e social com equidade.
Coopercitrus – Quais aprendizados da sua vivência no Sistema OCB e no campo moldaram sua visão sobre o agro brasileiro?
Tania Zanella – Ao longo desses anos, tanto no relacionamento direto com cooperativas quanto nas agendas institucionais em Brasília, aprendi que o agro brasileiro é altamente competitivo, inovador e resiliente, mas que essa força só se sustenta quando está organizada no território. O contato constante com produtores, dirigentes e equipes técnicas me mostrou que produtividade e sustentabilidade caminham juntas quando existe assistência técnica qualificada, acesso a crédito, governança e colaboração. Aprendi também que o desenvolvimento rural não se resume à produção: ele envolve gente, educação, sucessão familiar, conectividade e políticas públicas estáveis.
Coopercitrus – Qual é o papel do cooperativismo no fortalecimento do agro nacional?
Tania Zanella – O cooperativismo é um dos pilares do agro brasileiro. É por meio dele que pequenos e médios produtores têm acesso a insumos, tecnologias de ponta, mercados internos e externos, assistência técnica e crédito rural em condições competitivas. Nosso modelo societário gera escala, reduz riscos, aumenta a produtividade e distribui renda nos territórios onde as cooperativas atuam. As cooperativas agropecuárias são responsáveis por parcelas expressivas da produção agrícola nacional e sustentam cadeias inteiras, permitindo que o Brasil se consolide como potência alimentar e ambiental.
Coopercitrus – O que torna o modelo cooperativo mais sustentável e resiliente frente aos desafios do setor?
Tania Zanella –O cooperativismo já nasce sustentável. Seus princípios incorporam, desde sempre, o equilíbrio entre o econômico, o social e o ambiental — conceitos hoje sintetizados no ESG, mas que fazem parte da essência do modelo. As cooperativas atuam com visão de longo prazo, investem em inovação, educação e governança, diversificam atividades e compartilham riscos. Isso as torna mais preparadas para enfrentar volatilidade de preços, eventos climáticos extremos e mudanças de mercado. Além disso, trabalham em rede, o que fortalece a resiliência e permite respostas coletivas mais rápidas e eficientes.
Coopercitrus – Como o Instituto Pensar Agro tem contribuído para representar os interesses do setor junto à Frente Parlamentar da Agropecuária? Que avanços você destaca como conquistas do cooperativismo no Congresso?
Tania Zanella –O Instituto Pensar Agro (IPA), que atualmente presido, é uma ponte estratégica entre o setor produtivo e o Parlamento. O IPA qualifica debates, sistematiza informações técnicas e ajuda a orientar decisões legislativas com base em evidências e na realidade do campo. Para o cooperativismo, isso vem sendo essencial, uma vez que o IPA tem sido decisivo na articulação dessas agendas, garantindo que a voz das cooperativas esteja presente na formulação de políticas públicas. Entre as principais conquistas recentes no Congresso, destaco: o avanço da Reforma Tributária com reconhecimento das especificidades do agronegócio; a ampliação de políticas de crédito rural e programas voltados à inovação e conectividade no campo; o fortalecimento de pautas de sustentabilidade e competitividade que dialogam diretamente com o modelo cooperativista.
Coopercitrus – Qual o papel de cooperativas como a Coopercitrus para garantir competitividade, acesso a insumos e tecnologias, especialmente para pequenos e médios produtores?
Tania Zanella – Cooperativas como a Coopercitrus são fundamentais porque democratizam o acesso à tecnologia, à inovação e à assistência técnica. Pequenos e médios produtores, quando atuam de forma isolada, dificilmente conseguem acompanhar o ritmo de modernização do agro. A cooperativa equaliza esse cenário, oferta insumos de qualidade, proporciona planejamento produtivo, facilita acesso a crédito e promove capacitação contínua. Isso contribui para aumentar a competitividade individual, além de fortalecer cadeias inteiras, gerar renda no território e garantir maior previsibilidade para quem produz.
Coopercitrus – Você foi a primeira mulher a ocupar cargos estratégicos no Sistema OCB. Como vê a presença feminina hoje no agro e no cooperativismo?
Tania Zanella –Vejo a presença feminina crescendo com consistência — e isso é muito positivo para o setor. Nos últimos anos, o número de mulheres no quadro social e na força de trabalho das cooperativas aumentou de forma significativa, refletindo um movimento de maior inclusão e reconhecimento. Mas ainda temos desafios: as mulheres estão presentes, mas nem sempre nos espaços de decisão. Nosso esforço agora é ampliar o protagonismo feminino em conselhos, diretorias e posições estratégicas, porque a diversidade gera inovação, melhora a governança e fortalece o cooperativismo.
Coopercitrus – De que forma o Sistema OCB vem promovendo a participação de mulheres e jovens nas cooperativas e na sucessão familiar no campo?
Tania Zanella – O Sistema OCB tem atuado de forma estruturada para ampliar a participação de mulheres e jovens. Entre as iniciativas, destaco: Comitê Elas pelo Coop, criado após o 14º Congresso Brasileiro do Cooperativismo (CBC), que já se espalha pelos estados e pelas cooperativas, formando redes de apoio e estímulo à liderança feminina; trilhas de formação da CapacitaCoop, com cursos voltados à liderança feminina, desenvolvimento pessoal e fortalecimento institucional; programas voltados à sucessão familiar e formação de novas lideranças, que estimulam jovens a permanecer no campo com mais qualificação e visão empreendedora; iniciativas das próprias cooperativas, que têm implementado agendas internas de diversidade, governança inclusiva e protagonismo feminino. Essas ações estão transformando a estrutura de liderança do cooperativismo, garantindo renovação, equidade e continuidade.
Coopercitrus – Que mensagem você deixaria para mulheres que desejam assumir posições de liderança no agro?
Tania Zanella – A mensagem que deixo é simples e verdadeira: preparem-se, confiem na sua capacidade e ocupem seus espaços. O caminho exige estudo, coragem e resiliência, mas é possível — e necessário. Liderar não é abrir mão da sensibilidade, mas transformá-la em força. Cada mulher que avança abre portas para muitas outras. O cooperativismo precisa do olhar feminino para continuar crescendo de forma inovadora, diversa e humana. E nós, no Sistema OCB, estamos comprometidos em apoiar essa caminhada para que cada vez mais mulheres estejam onde sempre deveriam estar: nos espaços de decisão.







