Na Coopercitrus Expo 2025, o ex‑ministro da Fazenda e atual diretor de Estratégia Econômica do Banco Safra aponta caminhos para o produtor enfrentar pressões comerciais externas e a transição para uma agricultura cada vez mais sustentável.
O agronegócio brasileiro segue no topo das cadeias globais de alimentos, fibras e energia, mas chega ao segundo semestre de 2025 testado por um câmbio volátil e por incertezas no comércio internacional. Enquanto os cooperados fazem as contas para a safra 2025/26, o economista Joaquim Levy, que já presidiu o BNDES e, desde 2020, dirige a Estratégia Econômica do Banco Safra, resume a equação: “conhecimento é poder”. Para ele, a junção de gestão financeira, tecnologia embarcada e força cooperativa garante resiliência e produtividade ao produtor rural. Nesta entrevista exclusiva, Levy explica por que o câmbio segue sendo a variável-chave da inflação, sugere rotas de diversificação para blindar as exportações e defende a agricultura de precisão como antídoto para manter margem e competitividade.
Coopercitrus – Qual é sua visão para o agronegócio brasileiro no segundo semestre de 2025 e que diferenciais tornam o agricultor brasileiro único?
Joaquim Levy – A economia agrícola brasileira hoje é extremamente pujante e bastante diversificada, tanto no que produz quanto para quem vende. Estamos em mercados no mundo inteiro e seguimos numa evolução tecnológica muito forte. A agricultura de precisão já é realidade, plantio direto sobre palha vai ganhando o mundo, conseguimos fazer duas, três safras e evoluímos na pecuária com confinamento ou semiconfinamento e gestão de pasto. Além disso, as cooperativas oferecem apoio financeiro, insumos e estratégia para enfrentar incertezas da economia mundial. Poucas agriculturas reúnem tamanho de país, clima favorável, tecnologia de solo e essa estrutura de suporte. Nossa tarefa é seguirmos atentos a riscos políticos, geopolíticos e climáticos, mas eu diria que hoje temos uma das agriculturas mais pujantes do mundo.
Coopercitrus – Como o produtor pode se proteger das oscilações cambiais sem comprometer a rentabilidade?
Levy – Taxas de câmbio flutuantes são realidade no mundo inteiro: Japão, Canadá, Brasil. Às vezes o real oscila mais por diversas razões, mas isso faz parte do jogo. Há várias ferramentas; sempre envolve decisão de quanto da safra ou dos insumos você trava. Travar dá segurança, mas pode tirar parte do ganho se o mercado virar a favor. A grande vantagem de ter uma cooperativa é encontrar gente que ajuda nessas decisões, e os bancos oferecem instrumentos de hedge. No Banco Safra temos ampliado tanto as ferramentas de avaliação quanto as financeiras para o produtor se proteger.
Coopercitrus – Por que o cooperativismo ganha peso na gestão de risco e na adoção de tecnologia?
Levy – Cada vez mais, conhecimento é poder. Isso vai de técnicas agrícolas à proteção ambiental. Aqui em São Paulo há áreas que exigem cuidados especiais para não degradar o solo. Há quem entenda e ofereça orientação. Preservar patrimônio faz diferença: o preço de uma terra produtiva versus degradada é astronômico, e recuperar solo é caro. A cooperativa também dá acesso a equipamentos modernos, melhores condições de compra e produtos financeiros valiosos.
Coopercitrus – A inteligência artificial vai criar ou eliminar postos no campo?
Levy – No agro ela tende muito mais a tornar tudo mais eficiente do que a expulsar gente. Pergunte‑se: a parte chata e repetitiva do seu trabalho é o núcleo da atividade ou apenas a parte chata? Se for o núcleo, há risco de substituição por máquina. Mas se sobra gestão e criatividade, a tecnologia reduz a parte menos interessante e você fica com a melhor. Um piloto de trator hoje opera com muito mais informação do que há 30 anos. Em alguns casos o trator poderá trabalhar sozinho; em outros, não.
Coopercitrus – Onde a economia verde se converte em oportunidade?
Levy – Se você conhece o valor da sua terra, sempre será um pouco verde. Boas práticas ambientais só aumentam a produtividade. O Brasil é campeão de fixação natural de nitrogênio; o uso de biochar aumenta porosidade e vida bacteriana no solo; raízes profundas de capins melhoram a produtividade futura. Plantar árvores dá sombra ao gado, reduz estresse e aumenta o ganho de peso. Tudo isso preserva o maior capital, que é a própria terra, e ainda pode render crédito de carbono. Há também programas de manejo hídrico para evitar estresse de água; irrigar menos porque o solo está saudável tem valor incalculável.
Coopercitrus – Que mensagem final você deixa aos nossos 40 mil cooperados?
Levy – As oportunidades tecnológicas estão aí. O setor está passando por uma transformação importante. Cada vez mais recorre ao mercado de capitais e crédito livre, o que exige aprendizado para lidar com juros, volatilidade e risco. A evolução da tecnologia embarcada nos equipamentos, o cuidado com a terra e a gestão financeira, incluindo hedge, formam o tripé do sucesso do produtor rural. A beleza de uma feira como a Coopercitrus Expo é juntar tudo no mesmo lugar; você pode aproveitar para escolher o que melhor se encaixa no seu negócio.






