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Tendências no Agro | Maria da Conceição Guimarães

Com 38 anos de carreira, Maria da Conceição Guimarães defende um RH estratégico, conectado ao campo e às pessoas, e acredita que sair da zona de conforto é essencial para o futuro do agronegócio.

Filha de empregada doméstica, aluna de escola pública e sem qualquer ligação anterior com o agronegócio, Maria da Conceição Guimarães construiu uma trajetória improvável em um dos setores mais competitivos do País. Engenheira agrônoma “por exclusão”, como ela mesma define, iniciou a carreira em um nicho pouco disputado, o reflorestamento, enfrentou o preconceito de gênero e transformou cada obstáculo em impulso para crescer.

Mais de 30 anos depois, Conceição ocupa o cargo de Diretora de Recursos Humanos da UPL Brasil, uma das maiores multinacionais do agro no mundo. A executiva, que já foi Representante Técnica de Vendas, desenvolveu soluções no campo e liderou equipes comerciais, hoje defende um RH “mais terra”, próximo do negócio, das pessoas e da realidade do produtor rural.

Autora do livro Movida a Inquietudes, ela acredita que o incômodo é um sinal claro de evolução. Para Conceição, o conforto excessivo é sinônimo de estagnação. Nesta entrevista exclusiva, a executiva fala sobre liderança, gestão de pessoas, inovação, diversidade e produtividade, além de explicar por que o futuro do agro passa, necessariamente, por gente preparada, conectada ao campo e disposta a sair da zona de conforto.

Coopercitrus – Conte um pouco sobre a sua origem. Onde você nasceu, onde estudou e como o agronegócio entrou na sua vida?

Maria da Conceição Guimarães – Nasci em Taubaté, uma região que não é tão forte na agricultura, e não venho de uma família do agro. Então, como cheguei ao agronegócio? Prefiro dizer que o universo conspirou, porque não seria provável eu ter escolhido Agronomia; mas escolhi e sou literalmente apaixonada pelo setor. Descobri esse grande amor ao acaso. Vim de uma família muito pobre. Minha mãe, Natália, era empregada doméstica e tenho muito orgulho dela, porque foi minha referência ao longo da vida inteira. Eu queria fazer faculdade em tempo integral e ser uma mulher que se destacasse na carreira. Não podia estudar fora porque não tinha dinheiro, então a vida me levou a fazer as escolhas que eram possíveis. Acabei cursando Agronomia em Taubaté e, desde o início da faculdade, comecei a conhecer o agro e a me apaixonar. Tenho grande orgulho de fazer parte desse mercado no Brasil, que realmente acredito ser o setor mais importante do país e que muito nos orgulha. Foi por acaso, e é assim mesmo: o universo conspira e você acaba descobrindo suas paixões. O agro é uma das minhas grandes paixões.

Sua entrada no agronegócio não veio de uma tradição familiar, mas de uma escolha prática e da busca por oportunidades. Como essa ausência de “raízes” no setor moldou sua forma de enxergar o negócio e as pessoas que fazem o agro acontecer?

O grande desafio é fazer com que a maioria dos brasileiros compreenda a grandiosidade do agronegócio. Acredito que todos nós que estamos no setor temos o propósito de ajudar o Brasil a entender o quanto o agro é vital, gerando divisas e promovendo o crescimento do país. Minha entrada no agro veio justamente para vencer barreiras, como pessoa, como mulher e como profissional. No meu livro, conto que cheguei a ouvir que certas empresas não contratavam mulheres para a área comercial. Eu comecei porque amo desafios. O agronegócio era um território desconhecido para mim, um ambiente predominantemente masculino, e eu vinha de uma faculdade que não estava entre as “tops” do mercado. Esse lado desafiador me fez olhar para o setor de forma muito positiva: era um mundo a ser desbravado.

Em sua trajetória, você passou por diversas áreas, desde o campo até a liderança de RH em multinacionais. Olhando para trás, quais foram as decisões ou momentos que você considera determinantes para transformar aquela estagiária na executiva global que você é hoje?

É preciso se preparar para estar pronto quando a oportunidade chegar. Eu era uma ótima aluna e consegui um estágio na Monsanto. Naquela época, não havia perspectiva de contratação imediata, mas decidi dar o meu melhor. Quando surgiu a necessidade de alguém para atuar na área de reflorestamento, um nicho que pouca gente queria, eu já dominava o assunto. Fui contratada como representante técnica de vendas. Foi nesse período que desenvolvi uma máquina para aplicar herbicida (o Roundup) no reflorestamento, que inclusive ganhou o meu nome: “Máquina Conceição”. Isso abriu meu caminho e um mercado enorme para a empresa. Depois disso, passei pela gerência nacional de vendas, morei no Sul trabalhando com soja e milho, e segui para o marketing. Após 19 anos na Monsanto, a “inquietude” falou mais alto: eu estava confortável demais, mas não gosto de zona de conforto. Saí para fundar a DVA, que hoje é a UPL. Durante 19 anos na UPL, construímos uma empresa que hoje fatura bilhões. Há 16 anos, escolhi focar em Recursos Humanos, porque acredito que as pessoas são o diferencial que transforma os negócios. E agora, recentemente, decidi empreender novamente e abrir minha própria empresa, a Proa Agro. Sinto-me como se estivesse no começo da carreira; tudo é novo e instigante.

Recentemente você abriu sua própria consultoria. Qual é o propósito da Proa Agro e como sua experiência anterior está sendo aplicada nesse novo desafio?

O nome Proa Agro faz referência à proa do navio: é aquela que está à frente, que precisa enxergar os movimentos antes que eles aconteçam e antecipar as ondas em um mercado de ciclos como o nosso. O propósito da empresa é ajudar nossos clientes a crescer de forma estruturada, focando em quatro pilares fundamentais: Pessoas, Finanças, Governança e Marketing. Eu lidero a área de Pessoas, focando em performance, recrutamento executivo e no desenvolvimento de times de RH para que eles sejam realmente parceiros estratégicos do negócio.

Você defende que o RH precisa estar “mais próximo da terra”. Na prática, como as empresas do agronegócio estão hoje em relação à escuta ativa daqueles profissionais que estão lá na ponta, no campo?

Ouvir o cliente na ponta é vital. Quem está no “front”, como a equipe comercial ou os CTCs (Consultores Técnicos Comerciais) da Coopercitrus, é quem identifica a dor real do produtor. Soluções eficientes nascem dessa escuta, não de executivos isolados em escritórios. O RH precisa entender a linguagem do campo para atrair e desenvolver as pessoas certas.

Coopercitrus – O agronegócio mudou muito nas últimas décadas, tornando-se mais tecnológico e orientado por dados. Na sua percepção, o que diferencia o profissional de campo de hoje daquele que atuava há 20 ou 30 anos?

Vendedor é vendedor: relacionamento e comunicação clara continuam sendo essenciais. A grande mudança está no contexto. Antigamente, havia mais margem de erro. Hoje, com custos elevados e juros altos, o desafio é vender valor, não apenas preço. Isso exige muito mais conhecimento técnico e capacidade de argumentação. O profissional de hoje precisa ser um consultor para o produtor. Destaca-se quem consegue entregar soluções de alto valor agregado e ajudar o agricultor a ter rentabilidade.

Falando agora do produtor rural, que muitas vezes é o gestor da própria fazenda: por onde ele deve começar para gerir melhor as pessoas da sua propriedade, saindo de um modelo mais tradicional para um RH mais estratégico?

O produtor precisa começar conhecendo seus próprios valores e os valores de sua equipe. No campo, a proximidade faz toda a diferença. Gestão de pessoas na fazenda envolve confiança. Ações simples, como olhar para o bem-estar das famílias dos trabalhadores rurais, geram lealdade e performance. O agricultor não é apenas o dono da terra; ele é um líder que precisa influenciar pelo exemplo e manter as pessoas motivadas em torno de um objetivo comum.

Como você avalia o cenário atual para as mulheres no agronegócio? Quais são as principais fortalezas que a liderança feminina traz para o setor e o que ainda precisa avançar?

A mulher tem a mesma competência técnica que o homem, mas traz diferenciais como a sensibilidade e a percepção de ambiente. Essa capacidade de “ler” as pessoas e as situações é uma vantagem competitiva enorme em cargos de liderança. Vejo trabalhos incríveis sendo feitos por mulheres na gestão de propriedades e na sucessão familiar. A mensagem que deixo é: confie que você pode, porque você realmente pode. O espaço está aí para ser ocupado.

No seu livro, Movida a Inquietudes, você fala sobre como o desconforto pode ser um motor para o crescimento. Como nasceu a ideia desse livro e qual a principal mensagem que você quis passar para os profissionais do setor?

O livro surgiu de um desafio feito pelo José Luiz Tejon. Eu queria dar palestras, e ele me disse: “Se você prega que as pessoas devem sair da zona de conforto, então escreva um livro para se aprofundar nesse tema”. Eu escrevi o livro em apenas 20 dias, durante uma viagem à Itália. Foi uma experiência muito verdadeira sobre o que sinto: o incômodo é o que nos faz evoluir. Se você está muito confortável, você não cresce.


Para encerrar, vivemos um momento de margens apertadas no agro. Que mensagem você deixaria para o cooperado da Coopercitrus sobre como enfrentar esse cenário mantendo a resiliência e o foco no futuro?

O agronegócio é cíclico. Eu já vi muitas crises ao longo desses 38 anos, e todas elas passam. O produtor rural brasileiro é, talvez, a categoria mais resiliente que existe no mundo. Ele não desiste. Eu também sou produtora de uva em Petrolina e enfrento esses mesmos desafios. É um momento de cuidar dos custos, focar na produtividade e usar a cooperativa como sua grande aliada estratégica, especialmente na hora da comercialização. O Brasil não cresce sem a agricultura; nós alimentamos o mundo. Continuem resilientes, busquem inovação e tecnologia para produzir mais com menos custo, pois o que vocês produzem sempre terá mercado. As pessoas precisam se alimentar e o agro brasileiro é apaixonante por causa desse dinamismo.

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