CULTURAS

Tendência no Agro: Gustavo Rennó

Quem gosta do processo próspera

Produtor, consultor e professor, Gustavo Rennó defende que a alta produtividade no café depende menos da lavoura e mais do profissionalismo de quem está à frente dela. Gustavo Rennó assumiu a produção de café da família aos 18 anos, depois da morte acidental do pai. Interrompeu os estudos, foi para a roça e, um ano depois, voltou à sala de aula para cursar agronomia em Alfenas (MG), sem deixar a lida na fazenda. Fez mestrado, estudou administração rural, tornou-se consultor e segue como professor até hoje.

Na pandemia, passou a gravar aulas para o YouTube. A ideia era publicar no máximo 20 vídeos, mas o primeiro teve tanta audiência que o trabalho virou compromisso semanal, perto de completar 7 anos.

Em palestra para cooperados da Coopercitrus e seus sucessores, Rennó apresentou estratégias para alta produtividade. Nesta entrevista, ele explica por que produzir mais nem sempre é melhor, como definir o teto de cada lavoura e o que os jovens precisam ter em mente ao assumir o negócio da família.

Você assumiu a produção muito jovem. Como foi esse início?

Eu tinha uns 18 anos quando meu pai faleceu de forma acidental. A gente foi obrigado a virar homem muito cedo. Já começamos pegando todos os problemas e tivemos que assumir. Na época, dei uma pausa nos estudos e fui para a roça trabalhar. Eu sempre quis fazer agronomia e, depois de mais ou menos um ano, resolvi fazer o curso. Eu voltava de Alfenas, eram 70 quilômetros todo dia. Eu tinha que ir e voltar todo dia, porque, se ficasse um dia fora da roça, virava bagunça. Depois fiz o mestrado. Achei que tinha ficado muito teórico e fiz administração rural também. Aí entrei nas consultorias e continuo até hoje.

Você começou de maneira abrupta, mas nunca parou de estudar. E ainda é professor.

Sou professor até hoje. Entrei na escola com 3 anos de idade e só parei naquele momento em que meu pai morreu. Depois segui como aluno, ainda fiquei mais um ano à toa e virei professor. Dou aula até hoje.

Além da sala de aula, você compartilha conhecimento nos canais digitais. Por que decidiu levar a informação para a internet?

Foi na pandemia. Eu sempre tive muita aversão a aula online. De repente, estava dando aula online e pensei: isso funciona, muita coisa dá certo. Teve uma revolução muito grande no modo de aprendizado, com os vídeos e tudo mais. Aí fui fazer os vídeos. A intenção era fazer no máximo 20. Quando a gente fez o primeiro, ele estourou, foi um sucesso danado. Aí vi que não podia mais parar. Vai fazer 7 anos. Hoje o canal é o Gustavo Rennó Café. Toda sexta-feira, às 6 horas da tarde, a gente solta um vídeo no YouTube.

Com tanta informação na internet, como o produtor pode priorizar o que é confiável?

Tem muita coisa confiável e muita coisa não confiável na internet. É preciso tomar cuidado e investigar quem está falando. Hoje, quem tem uma comunicação boa e uma narrativa bem contada, repetida o tempo todo, faz as pessoas se conectarem com aquilo. E isso acaba prejudicando a produtividade e a renda. Então, estude um pouco os resultados que essa pessoa realmente teve, de onde ela saiu e o que está por trás do que ela fala. O importante é o que existe além de uma narrativa boa e de um vídeo bem produzido.

Existe um número que define alta produtividade no café? Ele vale para todo produtor?

Alta produtividade é produzir acima do que você produz dentro do nível tecnológico em que está inserido. Um produtor com lavouras muito velhas ou mal plantadas, que colhe 25 sacas por hectare, se passar para 30, já tem alta produtividade. Quem produz 70 e quer chegar a 75 sacas por hectare também. A média brasileira hoje está em 27 sacas, que é baixa. Quem tem um pouco mais de técnica fica em torno de 33, 34 sacas. A gente trabalha para chegar a 38, 40 sacas ou mais.

Muito cliente vem até nós na consultoria. A gente olha todo o cenário e diz: o teu teto de produtividade é este. A idade das lavouras, a arquitetura da planta, o tipo de solo, o teu nível de manejo e o teu nível de comprometimento limitam a produção aqui. Então não gaste para produzir mais do que isso, senão você vai perder dinheiro. Mantenha essa lavoura e comece outra, com um nível tecnológico mais alto, para ir se acostumando. Isso envolve mão de obra, estrutura de máquinas, logística, carreador, se a área é de montanha ou mecanizada. A gente precisa enxergar o todo para dizer onde ele tem que se encaixar.

Produzir mais é sempre melhor

Nem sempre. Para produzir mais, você vai precisar de um investimento muito alto. Você tem estrutura financeira para fazer esses investimentos? Às vezes, o produtor coloca a fazenda nota 10, mas com a caixa estourada. Toda vez que você cresce, você ameaça o teu caixa. Isso é natural. Então é preciso saber dosar e dar tempo, porque a pessoa muito ansiosa quer ir rápido demais e acaba colocando o caixa em risco.

Qual é a receita para ter alta produtividade com rentabilidade?

Profissionalismo. Não está na lavoura, não está no insumo. Está no produtor. Ele tem que avançar em profissionalismo. A gente poderia ficar horas falando, são mais de 50 itens que interferem na produtividade. Mas imagine a melhor fazenda com o pior cafeicultor: a fazenda vai ficar ruim. A pior fazenda com o melhor cafeicultor vai ficar boa. Então o diferencial não é a fazenda, é o cafeicultor. Ele tem que se profissionalizar, buscar recursos, visitar outras fazendas, conhecer cada vez mais, buscar informação de qualidade, ser persistente, trabalhar bastante e entender bem os processos.

E qual é o papel da cooperativa nesse processo?

A cooperativa tem um excelente papel nisso. Ela é uma excelente fornecedora de produtos e insumos, de armazenamento, de estrutura e de comercialização. Mas também tem a visão. Acabamos de sair de um encontro com os jovens, que considera os princípios do cooperativismo e a evolução dos produtores e dos cooperados. Isso é essencial.

Que mensagem você deixa para os jovens que estão assumindo a produção de café da família?

É muito difícil falar com essa geração, que é muito ansiosa, mas a realidade é esta: processo e persistência. Não é para ganhar muito dinheiro logo de cara. É se apaixonar pelo processo, pelo dia a dia, pelo serviço que é chato. É chato? Acorda, faz de conta que é bom, diz para você mesmo que é bom e vai se acostumando. Depois de bastante tempo, você vai ver que as conquistas são legais, mas o mais gostoso é o processo. E quem gosta do processo próspera.

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