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Entre riscos e oportunidades: o que esperar do mercado em 2026

César de Castro Alves, especialista do Itaú BBA, analisa os cenários do agro para 2026 e reforça a importância da gestão estratégica no campo.

Cesar de Castro Alves, engenheiro agrônomo e especialista em economia agrícola, é referência na análise de mercado agro no Brasil. À frente da consultoria Agro do Itaú BBA, ele acompanha de perto o comportamento de preços, cadeias produtivas e riscos do setor. Nesta entrevista, Cesar compartilha sua visão para os mercados de grãos, café, cana, laranja e proteínas, além de reforçar a importância da gestão estratégica no campo em tempos de incerteza. É engenheiro agrônomo formado pela Unesp de Ilha Solteira e mestre em economia aplicada pela Esalq/USP, tem mais de 20 anos de experiência em análise setorial e agronegócios.

Nesta entrevista, ele antecipa os cenários possíveis para 2026, destaca pontos de atenção e reforça a importância de planejamento, disciplina financeira e estratégia como diferenciais em um ambiente cada vez mais desafiador. Entre projeções, alertas e perspectivas, o leitor encontra, nas próximas páginas, um guia valioso para navegar o próximo ciclo com clareza e segurança.

Coopercitrus Como está se desenhando o ciclo para 2026, considerando os mercados de soja, cana, laranja, café e pecuária, e quais são os principais fatores que devem impactar o produtor?

César de Castro Alves – O ambiente é desafiador e nossa maior preocupação está ligada à soja, que tem peso enorme para as exportações brasileiras, embora não seja o principal negócio da Coopercitrus. Mesmo assim, há fatores que afetam todas as cadeias: custos de produção mais elevados, fertilizantes que subiram muito e um plantio realizado com o dólar valorizado, enquanto agora a moeda se enfraquece, criando descompassos. Na cooperativa, os pilares do faturamento seguem nessa ordem: cana-de-açúcar, laranja, café, grãos e pecuária. 

Começando pela cana, as usinas vivem hoje uma condição financeira sólida, bem mais preparadas do que em crises anteriores. O açúcar caiu bastante e deve haver um redirecionamento maior para a produção de etanol no próximo ano, já que o prêmio do açúcar está negativo. Há concorrência crescente do etanol de milho, mas o etanol de cana continua dominante. Esse movimento tende a dar sustentação ao preço do açúcar, que ainda assim deve ficar abaixo dos níveis deste ano. O fato de as usinas estarem parcialmente fixadas para 2026 proporciona alguma proteção. Além disso, a estrutura financeira do setor mudou profundamente: as empresas estão menos alavancadas, com mais caixa e capacidade de atravessar momentos difíceis. No cenário macro, os juros devem seguir elevados, provavelmente acima de dois dígitos, o que trava investimentos num setor muito dependente de crédito.

O câmbio deve fechar o ano a R$ 5,50, o que é positivo para o agro, mas a volatilidade no meio do caminho pode prejudicar preços internos de culturas como soja e café quando o real se aprecia. E um ponto central é que, apesar dos avanços em produtividade e tecnologia, a gestão ainda é um gargalo importante. O hedge é pouco utilizado. Há exemplos claros no café, que vive um momento excepcional, com custos já realizados e margens muito altas, mas muitos produtores ainda não venderam. Se o preço ceder, a margem aperta. Isso também vale para soja e pecuária. A gestão de riscos ainda precisa avançar e isso será crucial em um ano que promete ser muito volátil.

Já o citrus deve atravessar um período particularmente difícil, sobretudo por causa do avanço do greening. Os números têm mostrado que cresce tanto a área afetada quanto a severidade da doença, derrubando produtividade e criando um cenário muito desigual entre os produtores. Há clientes colhendo mais de mil caixas por hectare, alguns chegando a 1.500, o que torna a laranja um excelente negócio nessas condições. No entanto, os preços caíram de forma significativa e os custos aumentaram, reduzindo as margens. O setor também vive um movimento de migração para outros estados, na tentativa de escapar das áreas mais críticas. 

Plantar laranja é caro, exige investimento alto e leva cerca de três anos para começar a produzir, além de depender de irrigação nos novos pomares, algo que poucos estão dispostos a arriscar em São Paulo, embora existam regiões menos afetadas. Paralelamente, o consumo mundial segue em queda, o que complica ainda mais a equação. Apesar disso, quem passou pelas últimas crises e conseguiu manter pomares produtivos, mesmo convivendo com o greening, ainda obtém bons resultados e encontra oportunidades ao expandir para novas regiões. Mas é, sem dúvida, um ano mais apertado: a caixa de laranja, que já esteve em R$ 50, caiu para R$ 38, o que exige produtividades muito altas para equilibrar a conta. A boa notícia é que a média produtiva deste ano supera a do ano passado, o que ajuda a mitigar parte das dificuldades, ainda que não elimine o caráter desafiador do momento.

Coopercitrus – O crescimento dos biocombustíveis e do etanol de milho representam oportunidade para a produção de grãos?

César de Castro Alves – Sem dúvida. Os biocombustíveis representam uma das maiores oportunidades do Brasil na agenda climática, abrindo espaço para o país se consolidar ainda mais como fornecedor de energia limpa. Há um potencial gigantesco de conversão de cerca de 40 milhões de hectares de pastagens degradadas em áreas agrícolas, um processo caro e gradual, mas que aponta claramente o caminho de expansão para milho e soja. Essa mudança é reforçada pelo marco regulatório, que prevê aumento na mistura de biodiesel ao diesel e maior proporção de etanol na gasolina. Só isso já projeta uma necessidade crescente de produção de grãos e, consequentemente, de expansão de área no país. O movimento vai ocorrer, mas dependerá de preços que incentivam o plantio. 

Hoje, vemos um mercado muito ofertado. Os Estados Unidos colheram uma safra enorme de milho e produziram menos soja, mas o Brasil deve ter um volume expressivo de soja nesta safra. Por isso, não enxergamos altas relevantes nos preços de milho e soja no curto prazo, o que, diante de custos maiores, comprime as margens dos produtores. No médio e longo prazo, porém, o vetor dos biocombustíveis deve impulsionar a demanda e direcionar o crescimento da produção. O mundo busca fontes mais limpas de energia, não é uma agenda somente europeia, é global e o Brasil está plenamente alinhado.

No Itaú, acreditamos muito nessa transição e temos buscado acelerar projetos consistentes em que atuamos como parceiro financeiro para apoiar a conversão de áreas degradadas. Esse movimento, combinado à agenda climática, deve ganhar ritmo e abrir novas oportunidades para milho e soja.

Coopercitrus – A sustentabilidade ainda parece avançar de forma mais forte entre grandes grupos e financiadores, enquanto pequenos e médios produtores não demonstram a mesma adesão. Essa mudança de mentalidade deve demorar para se consolidar?

César de Castro Alves – O avanço é lento, mas está acontecendo. Ainda representa pouco diante do tamanho do agro brasileiro, mas cresce de forma constante. O clima tem se tornado uma preocupação central para os produtores. Está mais quente, mais seco, mais imprevisível, e isso torna a produção mais difícil em todas as culturas. Ao mesmo tempo, os bons exemplos de produtores que adotam práticas regenerativas, reduzem insumos químicos e investem na construção de solo mostram resultados concretos. Esses sistemas são mais resilientes, especialmente em anos de seca, e entregam maior produtividade e melhor margem. 

Mesmo sem um pagamento adequado por sustentabilidade ou um mercado de carbono consolidado, quem opera na fronteira tecnológica da agricultura sustentável já colhe mais resultados por hectare. É um caminho gradual, de longo prazo, que não tem retorno uma vez adotado. Por isso, temos buscado destacar clientes que já avançaram nessa agenda, para que suas experiências inspirem outros produtores. Embora o tema ainda seja restrito diante da dimensão do setor, tanto o interesse quanto os resultados estão crescendo rapidamente e essa trajetória deve acelerar. Sou otimista.

Coopercitrus – Como você avalia o papel da Coopercitrus na difusão de tecnologias e, agora, no trabalho da Fincoop ao orientar economicamente e financeiramente os cooperados? 

César de Castro Alves – A Cooperativa é a grande alavanca do desenvolvimento. O produtor pode até ter referências próximas, um vizinho, um amigo, um bom exemplo, mas é na cooperativa que ele busca informação estruturada e confiável. A Coopercitrus tem condições de ampliar ainda mais esse papel, tanto oferecendo soluções de crédito quanto promovendo a transferência de conhecimento em gestão. Eventos como o Workshop promovido pela Fincoop são exemplos. Eles reúnem produtores de diferentes perfis, colocando todos na mesma conversa de forma organizada. A cooperativa atua como catalisadora, porque são seus técnicos e agentes que visitam o produtor, o recebem e o acompanham. É ela que leva informação, caminhos e orientação em temas diversos, como gestão, tecnologia, sustentabilidade, cenário econômico, reforma tributária. O mundo está mais acelerado e exige cada vez mais preparo.

Há uma espécie de seleção natural acontecendo no setor, e produzir hoje é difícil justamente pela quantidade de conhecimento necessária. Mas o Brasil está entre os países mais preparados para enfrentar esse processo. E a cooperativa é o meio mais eficiente para que essa informação chegue ao produtor com credibilidade e rapidez. Quando a cooperativa apresenta bons exemplos e multiplica resultados positivos, a difusão acontece muito mais rápido. O sucesso do cooperado sustenta o sucesso da cooperativa e, por consequência, o nosso, como parceiros financeiros. É um ciclo que se retroalimenta. Sem a cooperativa, não conseguimos chegar ao produtor com a mesma força. E é muito positivo ver que as lideranças estão tão conectadas com essa agenda, assim como presenciar a casa cheia e o alinhamento do discurso com temas que julgamos essenciais.

Coopercitrus – Como vocês, Itaú BBA e Fincoop, têm se organizado em parcerias e o que já oferecem hoje ao cooperado por meio desses parceiros?

César de Castro Alves – Acabamos de lançar uma parceria que vínhamos estruturando há algum tempo: uma solução de crédito para custeio, o capital de giro de que todos os produtores precisam. Não é um recurso voltado a investimento, que normalmente exige taxas mais baixas. Estamos em um contexto desafiador de juros elevados, o que dificulta oferecer uma taxa muito atrativa. Ainda assim, conseguimos chegar a uma condição menor do que a Coopercitrus tem obtido com outros parceiros. Foi o equilíbrio possível neste momento. 

O mais importante, porém, é iniciar essa jornada 100% digital para que o processo seja ágil, replicável e sem burocracia. O produtor não precisa ser cliente do Itaú — desejamos que seja, claro —, mas o relacionamento que ele já mantém com a cooperativa nos dá segurança, pela confiança que temos na Coopercitrus, para construir e aprimorar essa solução juntos. Mais relevante do que a taxa, neste momento, é estruturar uma jornada escalável, preparada para ganhar força quando as condições melhorarem. Já esperamos uma redução dos juros — não será grande, mas já começa a acontecer — e isso irá favorecer ainda mais a iniciativa. Queríamos dar esse pontapé inicial porque acreditamos que a cooperativa tem essa necessidade; e também porque, para nós, é uma oportunidade de escalar e nos aproximar cada vez mais do nosso objetivo final: o produtor.

Coopercitrus – Deixe uma mensagem para o cooperado sobre o que vem pela frente na próxima safra: como ele deve se preparar, analisar o mercado e tomar decisões?

César de Castro Alves – O horizonte é muito favorável para o agronegócio. No Itaú BBA acreditamos profundamente no setor. Abraçamos essa causa de forma decisiva em 2019, embora já atuássemos antes, e desde então multiplicamos nosso tamanho. Continuaremos crescendo porque os pilares do agro são sólidos, e isso não muda. Mas o ambiente exige cada vez mais preparo. O próximo ano será desafiador: teremos eleições, volatilidade macroeconômica e desafios específicos do agro. É preciso cautela nos movimentos, especialmente para cooperados inseridos em setores que estão brilhando ou que devem brilhar, como café e pecuária.

O momento pede pés no chão e preparação cuidadosa. Há muito a ser feito antes de pensar em expansão — e o principal é planejar. Os cooperados devem procurar a cooperativa para discutir seus planos de desenvolvimento: se desejam expandir ou aumentar a produção, é essencial construir toda a engenharia dessa expansão. Isso cabe no balanço? A receita vai aumentar? Como ficará o caixa e a disponibilidade de recursos? Expandir demanda capital, e muitas vezes essa ampliação ocorre justamente quando o caixa está pressionado. Um pequeno vento contrário durante essa travessia pode fazer o produtor se “afogar em um copo d’água”.
Por isso, planejamento e gestão aprimorada são fundamentais para alcançar o mesmo nível de excelência que o cooperado já tem na fazenda. 

A mensagem é otimista, mas com cautela. Observamos muitos produtores enfrentando sérias dificuldades. Este ano foi duro, e o próximo não deve ser muito diferente. Porém, também vemos produtores indo muito bem, inclusive em setores difíceis, como a soja. Isso nos mostra que não é o preço que define perenidade e sucesso, mas sim preparação. Portanto, cuidado no ano que vem, mas também esperança e planejamento. É isso que fará os campeões. 

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