Introdução
A cigarrinha-das-raízes (Mahanarva fimbriolata) é uma das principais pragas da cultura da cana-de-açúcar no Brasil. Seu potencial de dano é elevado, podendo causar perdas de produtividade de até 80% em áreas com alta infestação. Além das perdas quantitativas, a praga também pode comprometer a qualidade da matéria-prima destinada à indústria sucroenergética.
Nas últimas décadas, a incidência da cigarrinha aumentou significativamente em função da expansão da colheita mecanizada sem queima. O acúmulo de palha sobre o solo cria um ambiente com maior umidade e temperatura favorável ao desenvolvimento da praga, proporcionando condições ideais para sua sobrevivência e reprodução.
Ciclo de vida e Monitoramento
O ciclo biológico da cigarrinha-das-raízes dura aproximadamente 80 dias, passando por três fases distintas: ovo, ninfa e adulto.
Fase de ovo
As fêmeas depositam, em média, até 340 ovos próximos à base das touceiras e sob a palhada. Inicialmente, os ovos apresentam coloração amarelada, tornando-se mais escuros à medida que o embrião se desenvolve. Durante o período seco, os ovos permanecem em diapausa, aguardando condições favoráveis de umidade para eclosão. A emergência das ninfas ocorre cerca de 20 dias após a postura.
Fase de ninfa
Após a eclosão, as ninfas fixam-se nas raízes superficiais da cana ou em regiões próximas ao solo. Durante essa fase, produzem uma espuma característica formada pela excreção da seiva sugada da planta. Essa espuma atua como proteção contra predadores, dessecação e variações de temperatura. O período ninfal dura, em média, 40 dias.
Fase adulta
Os adultos apresentam dimorfismo de coloração. Os machos normalmente possuem coloração vermelho-viva a amarelo-palha, enquanto as fêmeas são predominantemente marrom-escuras com faixas escuras. São insetos de hábito noturno, permanecendo escondidos nos cartuchos e na parte inferior das folhas durante o dia. A longevidade média dos adultos é de aproximadamente 20 dias.
Fase adulta – Macho (coloração avermelhada) e Fêmea (coloração marrom escura)
Monitoramento
O monitoramento deve ser iniciado logo após as primeiras chuvas, geralmente entre setembro e outubro, período em que ocorre a emergência das ninfas. Recomenda-se avaliar aproximadamente 1,2 pontos por hectare, sendo cada ponto composto por dois metros lineares de cana.
O nível de controle geralmente é atingido quando a média do talhão apresenta duas ninfas por metro linear, exigindo a adoção de medidas de manejo.

Danos causados à cultura
Os danos causados pela cigarrinha ocorrem tanto na fase de ninfa quanto na fase adulta.
Danos provocados pelas ninfas
As ninfas alimentam-se da seiva das raízes superficiais, provocando alterações fisiológicas importantes na planta. Ao atingirem o xilema das raízes, comprometem a absorção e o transporte de água e nutrientes. Como consequência, ocorre:
- Morte de raízes;
- Redução do desenvolvimento vegetativo;
- Desidratação dos colmos;
- Afinamento e enrugamento dos colmos;
- Redução do perfilhamento.
A ninfa da cigarrinha-das-raízes é a fase jovem desse inseto, sendo considerada a fase mais prejudicial para a cultura da cana-de-açúcar, ocasionando grandes perdas de produtividade. Ela se aloja na base das touceiras e se alimenta sugando a seiva diretamente das raízes e radicelas da planta. Quando a infestação ocorre em canas mais jovens o dano causado é maior, sendo assim canas mais jovens o nível de infestação para controle fica entre 1 a 2 ninfas por metro em canas maiores o nível de dano econômico pode ser maior, podendo chegar de 3 a 4 ninfas por metro para realizar o controle. |
A espuma produzida pelas ninfas funciona como proteção, mantendo a umidade e protegendo de inimigos naturais. Sua presença indica atividade da praga na região radicular e na base dos colmos. | A sucção contínua da seiva pelas ninfas provoca lesões nos tecidos da planta, resultando em escurecimento, secamento dos colmos, redução do vigor e perdas na produtividade da cana-de-açúcar. |
Danos provocados pelos adultos
Os adultos injetam toxinas nas folhas durante a alimentação, causando sintomas visíveis nas folhas, como:
- Pequenas manchas amareladas;
- Evolução para coloração avermelhada;
- Aspecto opaco das folhas;
- Redução da atividade fotossintética;
- Menor acúmulo de sacarose nos colmos.
- As lesões provocadas pelas picadas, além de diminuírem a área fotossintética das folhas, também favorecem a entrada de microrganismos causadores da deterioração dos tecidos vegetais, podendo resultar no secamento das plantas. Em infestações severas, observa-se brotação lateral, enraizamento aéreo e queda das folhas inferiores.
Manejo integrado
O controle eficiente da cigarrinha-das-raízes deve integrar diferentes estratégias.
Controle físico
O desaleiramento ou remoção do excesso de palha sobre a linha de cana reduz a umidade do ambiente e dificulta o desenvolvimento da praga, além de melhorar a eficiência das aplicações químicas e biológicas.

Comparativo de área desaleirada com palha em área total
Controle biológico
O fungo entomopatogênico Metarhizium anisopliae é uma das ferramentas mais importantes no manejo biológico da cigarrinha. Quando utilizado no início das infestações, proporciona excelente redução populacional e contribui para a sustentabilidade do sistema produtivo.

Fungo Metarhizium aninopliae colonizando cigarrinha adulta
Controle químico
O controle químico continua sendo uma ferramenta fundamental, principalmente em áreas de colheita tardia e sob altas populações da praga. A utilização de inseticidas sistêmicos permite o controle de ninfas e adultos, sendo importante realizar a rotação de ingredientes ativos para minimizar problemas de resistência.
Tanto o controle químico, com a utilização de inseticidas, quanto o biológico, utilizando fungos, podem aplicados de forma tratorizada ou aérea, utilizando drones e aviões, sendo as aplicações direcionadas ao pé da cana com maior eficiência dos que as aplicações aéreas.

Considerações finais
A cigarrinha-das-raízes é atualmente uma das pragas mais relevantes da canavicultura brasileira. O conhecimento do seu ciclo biológico, dos sintomas característicos e dos métodos de monitoramento é fundamental para a tomada de decisão. A adoção do Manejo Integrado de Pragas (MIP), combinando controle físico, biológico e químico, é a estratégia mais eficiente para reduzir perdas, preservar a produtividade e garantir a sustentabilidade dos canaviais.







