Com informação confiável e apoio da ciência, a citricultura ganha novos argumentos para aproximar o consumidor da fruta e do suco.
Mitos e verdades sobre o suco de laranja
Pesquisas esclarecem dúvidas e mostram que informação de qualidade contribui para recuperar o consumo e fortalecer toda a cadeia citrícola.
A laranja faz parte da rotina de milhões de famílias ao redor do mundo. Está na fruta consumida ao longo do dia, no suco do café da manhã e nas refeições. Além do sabor, oferece nutrientes importantes, como vitamina C, folato e potássio.
Nos últimos anos, porém, o suco de laranja passou a dividir espaço com dúvidas. Tem açúcar demais? Engorda? Criança pode tomar? É a mesma coisa que refrigerante?
Essas perguntas mudaram o comportamento de quem consome.
Entre as safras 2010/11 e 2025/26, o consumo mundial de suco de laranja caiu 46,5%, segundo dados reunidos pela CitrusBR e pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o USDA. No mesmo período, a produção mundial da fruta recuou 18%.
Para o produtor, o efeito é fácil de entender. Uma citricultura forte depende de produtividade, sanidade e boa gestão dentro da propriedade, mas também precisa de consumidor disposto a comprar a fruta e o suco. Por isso, valorizar a laranja também é levar informação clara para quem está do outro lado da cadeia.
A boa notícia é que essas dúvidas já têm resposta. Há mais de dez anos, pesquisadores brasileiros estudam o que acontece no organismo de quem toma suco de laranja. Um dos maiores conhecedores do assunto no país é cooperado da Coopercitrus.
Entre o consultório e o pomar
O Dr. Rubens Feferbaum conhece bem os dois lados dessa história.
Médico pediatra, com trajetória acadêmica na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, ele também é citricultor e cooperado da Coopercitrus há mais de 40 anos. Em sua propriedade, em Itaí, no interior paulista, cultiva cerca de 300 mil pés de laranja.
A experiência na medicina e na fazenda o leva a defender uma análise equilibrada do alimento.
O suco tem os açúcares que já fazem parte naturalmente da fruta.Só que ela traz junto vitamina C, folato, potássio e outros compostos que fazem bem à saúde.
Para o médico, julgar o copo apenas por um dos elementos, é chegar a uma conclusão pela metade.
O suco contém os açúcares que fazem parte naturalmente da fruta. Mas a laranja também oferece vitamina C, folato, potássio e outros componentes que fazem parte de sua composição.
“É líquido? É líquido. Hidrata? Sim, hidrata. Mas é alimento”, explica o médico.
O médico defende que o consumo seja tratado sem exageros. Nem transformar o suco em solução para problemas de saúde, nem classificá-lo como algo que deve ser evitado por todas as pessoas.
“Nós saímos de um equilíbrio para os extremismos”, reforça Dr. Feferbaum.
Suco de laranja é só açúcar
Não. O suco tem açúcares que estão naturalmente na fruta, mas também oferece nutrientes e outros componentes importantes, como vitamina C, folato, potássio e as flavanonas, substâncias naturais da fruta que vêm sendo estudadas por pesquisadores no Brasil e no exterior. Como em qualquer alimento, o que conta é a quantidade e o restante da refeição.
Tomar suco engorda

Nos estudos da Universidade de São Paulo, os participantes não ganharam peso durante o período em que tomaram suco. A pesquisadora Layanne Fraga, do Centro de Pesquisas em Alimentos, o FoRC, da Universidade de São Paulo, conduziu trabalhos que analisaram o consumo de suco integral dentro de uma alimentação habitual. “Em relação ao peso corporal, não houve ganho de peso nos participantes durante o consumo do suco”, destaca.
Isso não significa que pode consumir sem limite. Como qualquer alimento, o suco precisa fazer parte de uma alimentação equilibrada. O Dr. Feferbaum lembra que a pergunta certa não é se um alimento é bom ou ruim, e sim quanto, quando e junto com o quê ele é consumido.
O suco aumenta a glicemia
Depende de como se toma. Segundo Layanne Fraga, as flavanonas ajudam a liberar o açúcar mais devagar durante a digestão. Nos estudos, o suco foi sempre tomado junto com o almoço ou o jantar, dentro da alimentação normal dos participantes. Para quem tem diabetes ou outra condição de saúde que exige controle da alimentação, a recomendação continua sendo individual.
“Suco integral é igual a refrigerante”
Não. Essa diferença precisa estar clara.
O suco integral é feito de laranja e não recebe açúcar nem água adicionados. Néctares, refrescos e outras bebidas com sabor de fruta podem ter composições diferentes, com menos fruta e, muitas vezes, com água e açúcar. “É importante diferenciar o suco de laranja 100% daquelas bebidas à base de frutas ou refrigerantes que contêm açúcares adicionados”, explica a pesquisadora. Para o consumidor, vale a regra de sempre olhar o rótulo antes de comprar.
Nem tudo que tem laranja no rótulo é suco
| Suco integral | Néctar | Refresco / bebida à base de fruta | |
|---|---|---|---|
| É feito de fruta? | Sim, 100% | Parcialmente | Em menor proporção |
| Leva água? | Não | Sim | Sim |
| Leva açúcar adicionado? | Não | Pode levar | Pode levar |
| Mantém os compostos naturais da laranja? | Sim | Em parte | Em parte |
Para escolher melhor: confira a denominação do produto e a lista de ingredientes no rótulo.
O que a ciência mostra
Pesquisadores ligados à USP estudam a laranja e o suco de laranja há mais de dez anos.
Os trabalhos já avaliaram aspectos como pressão arterial, colesterol, glicemia, peso corporal e funcionamento do intestino.
Entre os pesquisadores que participaram dessa trajetória estão Franco Maria Lajolo e Neuza Hassimotto.
“Nosso grupo pesquisa compostos bioativos de alimentos, que estão presentes principalmente em alimentos vegetais, como frutas, hortaliças e cereais. Apesar de não serem necessariamente nutrientes, eles podem atuar sobre o metabolismo, algumas funções celulares e vias de sinalização do organismo. Quando consumidos regularmente, podem trazer benefícios à saúde”, explica a farmacêutica bioquímica e docente da USP, Dra. Neuza Hassimotto.
De acordo com a Dra. Neuza, um dos fatores que despertou o interesse pelo suco de laranja é a presença das flavanonas. Esses compostos não são encontrados com a mesma frequência em outras frutas e vegetais, o que torna a laranja uma fonte particularmente interessante para investigação científica.
“Desde 2013, nossos estudos vêm mostrando que essas substâncias podem atuar em diferentes vias de sinalização do organismo, apresentando, por exemplo, ações antioxidantes e anti-inflamatórias”, afirma a Dra. Neuza.
Um dos estudos mais recentes foi desenvolvido durante o doutorado de Layanne Fraga, que analisou .
Na pesquisa, voluntários saudáveis consumiram 500 mililitros de suco de laranja Pera por dia durante 60 dias. Ao final do período, os pesquisadores observaram redução da pressão arterial entre os participantes.
“Em um ensaio clínico conduzido durante o meu doutorado, observamos que o consumo de 500 mL/dia de suco de laranja Pêra durante 60 dias promoveu uma redução da pressão arterial em indivíduos saudáveis”, relata Layanne.
A quantidade usada no estudo, porém, não deve ser entendida como uma recomendação para todas as pessoas. A própria Layanne reforça que cada organismo responde de uma maneira. “Cada indivíduo é único e pode responder de maneira diferente ao consumo de suco de laranja”, afirma Layanne. Alimentação, metabolismo e estilo de vida mudam a resposta de cada um. Na prática, isso significa que o alimento precisa ser considerado junto com o restante da dieta e os hábitos de cada pessoa.
Flavanonas: além das vitaminas
O nome pode parecer complicado, mas as flavanonas são substâncias encontradas naturalmente nas frutas cítricas.
Elas ajudam a combater a inflamação e o desgaste das células e vêm sendo estudadas por sua ligação com a saúde do coração. É por causa delas, entre outros motivos, que avaliar o suco só pelo açúcar deixa de fora boa parte da história.
Para o consumidor, o mais importante é saber que a laranja oferece mais do que vitamina C. Há um conjunto de componentes presentes na fruta que continua sendo estudado pela ciência.
E para as crianças?

Nos primeiros anos de vida, a orientação pediátrica é priorizar a fruta in natura, explica o Dr. Feferbaum. A fruta inteira oferece fibras, textura e sabor, o que ajuda a formar o paladar da criança. O médico reforça ainda a importância do aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses e da introdução adequada da alimentação complementar.
A partir dos dois anos, o suco pode entrar em uma alimentação variada: cerca de 120 a 150 mililitros para as crianças menores e de 180 a 200 mililitros para as maiores. “Tem que evitar os excessos”, afirma.
Laranja na infância
Nos primeiros anos: priorize a fruta in natura.
Depois dos 2 anos: o suco pode fazer parte de uma alimentação variada em quantidade adequada à idade.
Sempre: diante de dúvidas ou condições específicas de saúde, procure o pediatra ou o nutricionista.
Informação para escolher melhor
Para Feferbaum, um dos desafios é fazer a informação chegar ao consumidor de maneira clara.
Para o Dr. Feferbaum, um dos desafios atuais é fazer a informação chegar ao consumidor. Nas redes sociais, alimentos podem ser apresentados como vilões em um momento e como solução para todos os problemas pouco tempo depois.
O suco não precisa ser tratado como remédio, mas também não deve ser condenado sem levar em conta o alimento como um todo.
É justamente nesse ponto que estudos, universidades e profissionais de saúde podem ajudar, explicando o que já se sabe, o que ainda está sendo pesquisado e onde é preciso ter cuidado.
A força por trás da laranja
A citricultura sustenta propriedades, indústrias, transportadoras, empresas de tecnologia, comércio e pesquisa. Segundo o Fundecitrus, a cadeia movimenta cerca de US$ 15 bilhões por ano, está presente em aproximadamente 350 municípios do cinturão citrícola e gera cerca de 200 mil empregos diretos e indiretos.
Na safra 2025/26, o Brasil exportou praticamente o mesmo volume de suco da temporada anterior, com 746,9 mil toneladas, segundo a CitrusBR. A receita, no entanto, foi cerca de 30% menor, algo em torno de US$ 2,38 bilhões.
O produtor pode melhorar a qualidade da fruta, enfrentar o greening, modernizar o pomar e produzir mais, mas não consegue, sozinho, decidir quantas pessoas vão beber suco. Por isso, recuperar a confiança do consumidor se tornou prioridade para quem produz. Quanto maior o interesse pela fruta e pelo suco, maior a possibilidade de fortalecer a demanda ao longo da cadeia.
A citricultura em números
| Número | O que representa |
| 255,20 milhões | de caixas de 40,8 kg estimadas para a safra 2026/27 no cinturão citrícola |
| 184,37 milhões | de árvores produtivas, em mais de 366 mil hectares |
| 350 | municípios, aproximadamente, ligados ao cinturão citrícola |
| 200 mil | empregos diretos e indiretos gerados pela cadeia |
| US$ 15 bilhões | movimentados por ano pela citricultura |
| 46,5% | foi a queda do consumo mundial de suco de laranja entre as safras 2010/11 e 2025/26 |
Fontes: Fundecitrus, CitrusBR e USDA







