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“São Paulo vai liderar o avanço dos biocombustíveis no Brasil e no mundo”

Guilherme Piai Silva Filizzola

O Estado se destaca por encabeçar a produção da expansão de fontes limpas como a biomassa, biometano e a bioenergia.

Em outubro de 2023 o produtor rural Guilherme Piai Silva Filizzola assumiu o comando da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Formado em administração de empresas, com pós-graduação em gestão pública, o jovem secretário tem 33 anos e nasceu em Presidente Prudente.

Piai é ex-diretor executivo do Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) e ex-secretário executivo da pasta, onde atuou para a expansão dos programas de extensão rural, capacitação técnica no campo e ampliação do portfólio de pesquisa e desenvolvimento dos institutos agronômicos estaduais. No Itesp, coordenou a maior regularização fundiária no campo, entregando títulos de propriedade a 528 assentados do Pontal do Paranapanema e 37 escrituras para médios e grandes proprietários rurais da região.

Em entrevista à Revista Coopercitrus, o secretário enfatizou o potencial de São Paulo na produção de combustíveis renováveis, contribuindo para a mitigação dos impactos do aquecimento global por meio da oferta de energia verde. Ele também salientou que o estado tem potencial para se tornar um grande exportador de bioenergia, aproveitando suas usinas de cana-de-açúcar de alta qualidade

Coopercitrus – Quais são os principais desafios enfrentados atualmente pelos produtores rurais no estado? Quais soluções estão sendo propostas?

Guilherme Piai – A Secretaria trabalha com cinco pilares, que são os desafios que o setor enfrenta e nos quais precisamos evoluir.
O primeiro deles é a segurança jurídica, mas estamos resolvendo. Tivemos o primeiro Carnaval dos últimos anos sem invasão de propriedade, pacificamos o Pontal do Paranapanema, fizemos as maiores entregas de títulos rurais da história e vamos titular todos os assentados do estado de São Paulo até 2026, para médio, pequeno e grande produtor. Independentemente do tamanho da propriedade, o produtor tem que ter segurança para investir. A nossa palavra, além de segurança jurídica, é paz no campo. Vamos preservar as propriedades e não vamos permitir invasões como aquelas executadas por movimentos terroristas que invadem propriedades. Isso não terá espaço no estado de São Paulo. Segurança jurídica é uma peça fundamental. O governo do Tarcísio liderou o processo e está entregando muito resultado, e estamos muito felizes com esse primeiro pilar.

Depois, falamos de crédito e seguro rural, que são o grande calcanhar de Aquiles do agro brasileiro. O Governo Federal deixou muito a desejar, pois havia projetado na LOA (Lei Orçamentária Anual) R$ 1 bilhão e não executou nem R$ 600 milhões no seguro rural, ficando muito recurso contingenciado, e as catástrofes climáticas estão acontecendo com mais frequência. São Paulo é um dos poucos estados do Brasil que tem subvenção estadual e vamos aportar agora R$ 90 milhões. No crédito, nós temos o Feap (Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista) para o pequeno produtor, e vamos conseguir destinar R$ 300 milhões, com juros de 3% ao ano e carência de dois anos para pagar, com taxa totalmente subsidiada e com recursos do Tesouro e royalties do petróleo e recursos hídricos.

O terceiro pilar é a conectividade rural, e precisamos expandi-lo. O campo de São Paulo tem muitos vazios e temos internet em apenas 33% da extensão territorial rural. Temos muito espaço para crescer e isso gera inclusão, dignidade, aumento de produção, sensoriamento e agricultura de precisão. Esse é um passo muito importante.

O quarto é a irrigação, que é prosperidade e segurança climática, pois melhora o quesito seguro, diminui o custo do plantio, se produz mais com área menor e melhora a emissão de gases do efeito estufa. Queremos lançar um plano de irrigação estadual. Estou indo para o estado do Nebraska para assinar um termo de cooperação com a Universidade de Nebraska-Lincoln e visitarei as fábricas da Valley Irrigation e Lindsay Corporation. Estou falando com a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) e o DAEE (Departamento de Água e Energia Elétrica) sobre a questão de outorga, barramentos e construção de açudes, pois temos que expandir. São Paulo tem topografia e recursos hídricos abundantes e temos que criar uma política para armazenamento de excesso de água para usar nos períodos de seca. Temos enfrentado longos períodos de seca e, quando temos chuvas, ela chega de forma muito concentrada.

O quinto pilar é a transição energética e o CAR (Cadastro Ambiental Rural), que é um exemplo para o Brasil. São Paulo já validou 50 mil CARs, muito mais que o Brasil inteiro somado. Temos 150 mil CARs aprovados pelo Sicar (Sistema de Cadastro Ambiental Rural) e precisamos do aceite do produtor. Pedimos ajuda dos cooperados da Coopercitrus. Iremos lançar uma campanha de marketing pedindo que o produtor aceite seu CAR, pois ele é uma forma de extensão rural, valorização da propriedade, dignidade ambiental e crédito em banco, pois tudo está vinculado ao CAR. São os próximos passos do governo de SP, mas estamos avançando. Queremos validar 100% dos CARs em SP o mais rápido possível. 

A transição energética é aproveitar o nosso “pré-sal caipira”. Temos 180 usinas registradas no Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária), e quase 70 delas estão a 20 quilômetros de gasodutos já existentes. São Paulo poderá produzir milhões de metros cúbicos de biometano.

Estamos fazendo resoluções em conjunto com a Cetesb para aumentar a produção de biometano em São Paulo. Uma delas é voltada para suinocultura, vinicultura e pecuária, e a outra para as usinas com procedimentos padronizados que vão agilizar os licenciamentos ambientais.

O mundo olha hoje não só a segurança alimentar, mas também a segurança e transição energética. O governador já escolheu a matriz energética que vai estimular no Estado de SP: a do setor sucroenergético. Vamos aproveitar essa matriz energética de SP, com o pré-sal caipira, valorizando os recursos naturais, e o agro está muito envolvido nisso. As oportunidades e desafios estão elencados nesses cinco pilares.

Coopercitrus – Um dos desafios citados pelos produtores rurais é a falta de mão-de-obra qualificada e a sucessão. Qual sua visão sobre as possibilidades para a capacitação de mão de obra?

Guilherme Piai – A mão-de-obra e sucessão são os grandes desafios do agro no mundo, principalmente nos países europeus e nos Estados Unidos, pois quem está no agro já está mais envelhecido. Essa renovação vai se tornar um desafio no Brasil. Precisamos investir muito em educação agrícola e a secretaria está antenada a isso. Estudei na Fundação Shimura, que é um exemplo de educação agrícola. A Fundação Coopercitrus é outro grande exemplo de educação agrícola. Nós fizemos uma reunião na secretaria e levamos essa demanda para o secretário da educação. Pela primeira vez, o ensino médio terá técnico agrícola e poderá começar com 8 mil alunos, uma iniciativa do governo de SP. Essa foi uma construção com a Secretaria de Educação e com as Etecs Agrícolas. Queremos participar através de uma curadoria, levando em consideração o modelo de sucesso já existente que tem parceria com a iniciativa privada para oferecer cursos que o setor precise e a mão de obra que o setor demanda para que esse jovem saia do curso já empregado. Temos 35 Etecs no estado de SP; vamos começar com 10 unidades e levar os diretores e professores dessas unidades até a Fundação Shimura e a Fundação Coopercitrus Credicitrus, que são dois exemplos de sucesso, e copiar o que dá certo.

Com isso, vamos melhorar a capacitação, melhorar a aula prática e colocar o jovem para aprender no mercado de trabalho, na fazenda e na agroindústria. 

Coopercitrus – Como a Secretaria está incentivando a inovação e a diversificação das atividades agrícolas, principalmente pensando nos pequenos e médios produtores?
Guilherme Piai –
Através do nosso programa Integra SP, que é da Cati, em parceria com a Rede ILPF e com a Syngenta e muitas empresas da iniciativa privada. Também temos o Feap, onde iremos financiar a integração lavoura-pecuária, a integração lavoura-pecuária-floresta, a integração lavoura-pecuária-energia, a recuperação de pastagem degradada e o Programa Solo + Fértil. Estamos muito antenados nisso e São Paulo tem um potencial agrícola muito forte para expansão. O Pontal do Paranapanema, com a segurança jurídica, é uma nova fronteira agrícola e temos milhões de hectares para trabalhar essa diversificação de culturas, que é importante pois gera matéria orgânica que melhora a qualidade do solo e aumenta a produção. A Secretaria está muito focada nisso e com os parceiros corretos para que essa política aconteça.

Coopercitrus – O Projeto Cacau é um dos exemplos de incentivo a diversificação e a exploração de alternativas para a rotação de culturas.

Guilherme – Esse programa já é um sucesso. As empresas de iniciativa privada já estão de olho e a produção não para de crescer. Estamos produzindo mudas pela Cati através de uma máquina que compramos da Dinamarca. São mudas compactadas com substratos que não usam plásticos, e são orgânicas. Essa cultura tem uma demanda muito alta, entre outras que queremos incentivar no estado. É um programa onde a Apta Regional também trabalha com pesquisas em parceria com a Cati, que começamos na região de São José do Rio Preto e queremos expandir para todo o estado.

Coopercitrus – Esse programa tem um público alvo?

Guilherme Piai – Pequenos e médios produtores, pois 80% dos produtores de SP são pequenos e médios. Por isso o cooperativismo faz muito sentido, e a Coopercitrus é um grande exemplo.

Coopercitrus – Qual é a importância das cooperativas nesse processo de desenvolvimento dos produtores rurais?

Guilherme Piai – A cooperativa é essencial, pois gera profissionalismo, treinamento, capacitação, melhora a operação, compra e vende em volume e consegue dar todo o suporte da propriedade — ainda mais em SP, onde 80% são pequenas e médias propriedades, o sistema cooperativista faz muito sentido. Somos parceiros das cooperativas, da Ocesp (Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo) e de entidades que representam todo esse setor, que é gigante. Temos feito muitas parcerias pensando em políticas e lançando programas primeiro ouvindo as cooperativas que têm contato direto com o produtor. Acredito que o grande sucesso da Secretaria de Agricultura de São Paulo vem dessa humildade de ouvir o setor, de estar perto das câmaras setoriais, perto das cooperativas e das entidades para lançar políticas em conjunto com vocês.

Coopercitrus – Qual mensagem você deixa aos produtores cooperados?

Guilherme Piai – Primeiramente gostaria de agradecer por tudo que eles fazem. A Secretaria existe por eles e para eles. Este foi um ano difícil de seca e sabemos o quanto o homem e a mulher do campo trabalham e lutam. A vida do homem e da mulher do campo não é fácil, são pessoas com pele machucada pelo sol, com a mão calejada, de gente que luta de domingo a domingo, com operações que dão trabalho. Aqui no Brasil nós sofremos uma inversão de valores muito grande, um lobby de pessoas que não fizeram a lição de casa lá fora e querem criticar o nosso agronegócio. Eu sinto gratidão e orgulho de poder representar um setor tão importante como esse, que é exemplo, que é sustentável, que emprega, gera riqueza e prosperidade. Então, é só agradecer a todos os cooperados, todos os produtores, dizer que podem contar incondicionalmente conosco e que a porta da Secretaria está escancarada para a Coopercitrus e seus cooperados.

Legenda O secretário de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Guilherme Piai, destaca que o setor sucroenergético posiciona São Paulo na liderança nacional da transição energética, mirando a descarbonização.

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